18 de outubro de 2017
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Histórias de bike: Porque as mulheres podem (e devem!) pedalar

Por Taís Morais*

Este é meu primeiro artigo para o site do Mountain Bike Brasília. Aliás, meu primeiro artigo em muito tempo. Jornalista de profissão, mas com a alma na pesquisa acadêmica e sobre a ditadura militar, meu coração vive dividido entre família, trabalho e bicicleta.

Acredito ter nascido com os pés nos pedais. Minha mãe não diz isso, mas acho que meu primeiro berço tinha formato de bike. Crescer em Brasília foi um grande privilégio. A cidade, vazia e segura, proporcionava passeios de patins e bicicleta por todos os cantos onde os cambitos nos levassem. E nossos pais se preocupavam, claro, mas não como os pais de hoje.

Eu pegava minha Monark douradinha e sumia por aí. Paixão pelos pedais desde pequena.

Com o passar dos anos eu quis mais. Não eram só passeios. Queria PEDALAR igual gente grande. No entanto, as condições de acesso aos equipamentos não eram boas no Brasil, muito menos no bolso dos meus pais. Me virei com o que tinha. Bicicross, mountain bike do Paraguai e Caloi 10. Foi assim que comecei a vida nos asfaltos da cidade: de Caloi 10. Os ciclistas que eu conhecia também andavam de bicicletas simples, alguns tiveram a possibilidade de trazer equipamentos de fora, mas éramos todos felizes e pedalantes livres.

Não havia muitas mulheres no meio e integrar uma esquipe era bem difícil. Sem dinheiro, então, era quase impossível. Fui desenvolvendo a arte de pedalar sozinha. O que não é fácil hoje em dia, mas ainda alimento o hábito, mesmo com a insegurança das ruas.

Hoje em dia Brasília é recheada de grupos de ciclismo. As mulheres estão participando com bastante frequência e isso me enche de orgulho. Já somos muitas nas competições e nas cicloviagens. Coisas raras no passado.

No entanto, ainda sinto, por parte das próprias mulheres, alguma resistência em pedalar com homens. Depois de 6 anos afastada dos asfaltos e quase quatro das trilhas, volto à ativa com o grupo Mountain Bike Brasília pelos caminhos do cerrado. Estou feliz, mas seria bem melhor se as mulheres se unissem à nós.

Não raro ouço: – mas só você no meio dos homens? Sim, só eu porque as mulheres têm algum tipo de preconceito em pedalar com eles. Eu digo que é muito bom para quem quer treinar. Na maior parte das vezes eles são mais fortes, então obriga os mais fracos a tentarem acompanhar. O mesmo vale para as técnicas. Se você está disposta a aprender, sempre te alguém disposto a ensinar.

Homens são bons amigos e bons colegas desde que os limites sejam impostos claramente por ambos os lados. Tenho muito bons amigos, a maior parte conquistada nos pedais, onde o cansaço e a convivência se encarregam da aproximação, do conhecimento mútuo e do respeito.

Confesso que sou bicho de asfalto. Minha vida ciclística sempre foi mais focada nas estradas que nas trilhas, pois sujar minhas roupas e sapatilhas era um pouco demais para mim. Hoje, acreditem, gosto bastante de voltar para casa suja de terra, com base de poeira no rosto e suada. Ter pedalado sozinha no meio daquele bando de macho é coisa superada há mais de uma década, quando minhas amigas preferiam ficar no ar condicionado das academias.

A sensação de ultrapassar meus limites, quebrar tabus e superar meus medos é maior que meu nojo de meter as sapatilhas na lama ou de ficar de molho em casa porque outras mulheres não querem pedalar em um grupo onde a presença dos homens é maior que a das mulheres.

Então, meninas, bem vindas ao mundo ex-masculino do Mountain Bike e do Ciclismo de Estrada.

Nos próximos textos conto como me adaptei ao esporte quase exclusivo dos homens nestes quase 25 anos de pedal e como ele me ajudou a superar muitas coisas na vida.

Sobre a autora

Taís Morais é mãe, jornalista, escritora, biciclopata e ciclista. Nas horas vagas é observadora das coisas da vida. Chocólatra por natureza.
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