22 de julho de 2017
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Como escolher a melhor graxa para a manutenção da sua bicicleta

Como toda máquina de precisão, a bicicleta necessita de lubrificação não apenas em sua transmissão, mas também em diversas peças móveis como rolamentos de cubos, pedivelas, caixas de direção e, no caso de bicicletas de suspensão dupla, nos rolamentos e buchas da suspensão traseira. Além destes, outros componentes também demandam lubrificação – neste caso como medida anti-corrosiva -, como parafusos, blocagens e canotes de selim.

Existe um debate interminável entre mecânicos e ciclistas sobre qual é o melhor tipo de graxa para utilização em bicicletas. Longe de haver uma resposta simples, a verdade é que devido às suas propriedades físico-químicas, cada produto possui suas próprias características de viscosidade, adesividade, durabilidade, resistência à água e às altas temperaturas. Asim, cada parte da sua bicicleta necessita de uma graxa específica.

Para ajudar na escolha da graxa correta para a sua bike entre as centenas de opções disponíveis, vamos conhecer melhor estas características.

A correta escolha da graxa aumenta a vida útil dos componentes
A correta escolha da graxa aumenta a vida útil dos componentes

Como são produzidas

Basicamente falando, graxas utilizam em sua composição pelo menos três ingredientes:

Óleo (entre 70 a 90%) – Base lubrificante, que pode ser de origem mineral ou sintética;

Espessante (entre 3 a 30%) – Material que em contato com o óleo-base resulta em uma estrutura semi-fluida. O principal espessante utilizado em graxas de uso em bicicletas é o sabão obtido obtido a partir de metais como lítio, alumínio, sódio e cálcio, entre outros.

Outros tipos de espessantes como polímeros e cerâmicas vem ganhando popularidade nos últimos tempos, graças às suas características de resistência ao calor e à água e ao fato de serem mais polivalentes que os espessantes a base de sabões metálicos.

Aditivo (entre 0 a 10%) – Conforme o uso a qual se destinam, as graxas podem receber aditivos como anti-oxidantes e inibidores de ferrugem ou que aumentem sua resistência à pressão e à alta/baixa temperatura.

Dependendo do tipo e da porcentagem de cada ingrediente, as graxas poderão diferir entre si em termos de resistência à água, à temperatura e à pressão, viscosidade, adesividade e estabilidade.

Propriedades

Para escolher qual a graxa mais indicada para uma utilização específica, é necessário conhecer suas principais propriedades físico-químicas:

Consistência – Trata-se da medida da rigidez da graxa. A consistência correta fará com que a graxa permaneça na peça ou componente da bicicleta, sem gerar muito atrito. Ela é classificada de acordo com uma escala desenvolvida pelo NLGI (National Lubricating Grease Institute). Quanto mais macia a graxa, menor será seu número NLGI.

Via de regra, graxas utilizadas na manutenção de bicicletas situam-se entre os números 1 a 3.

Classificação de graxas por número de consistência NLGI

Número
NLGI
Penetração ASTM
(10–1 mm)*
Aparência em
temperatura ambiente
Consistência equivalente em culinária
(para fins de comparação apenas)
000 445–475 Muito fluida Óleo de cozinha
00 400–430 Fluida Mel
0 355-385 Semifluida Molho de mostarda
1 310–340 Muito macia Extrato de tomate
2 265-295 Macia Manteiga de amendoim
3 220-250 Dureza média Margarina (gelada)
4 175-205 Dura Frozen Yogurt
5 130-160 Dureza alta Patê
6 85-115 Extremamente dura Queijo cheddar

*O teste de penetração ASTM mede a profundidade atingida por uma amostra de graxa colocada em um cone de medição, em décimos de mm

Temperatura de trabalho – Fator de extrema importância nos rolamentos de cubos, cuja rotação elevada faz com que os mesmos atinjam altas temperaturas, capazes de degradar o elemento lubrificante. Nos demais rolamentos, incluindo os do movimento central, este fator é menos relevante.

Toda graxa possui uma faixa de temperatura de trabalho, via de regra especificada em sua embalagem, que fica entre a temperatura mínima de uso (Low Temperature Limit – LTL) e a temperatura máxima de uso (High Temperature Performance Limit – HTPL).

Utilizar a graxa abaixo do LTL fará com que ela solidifique e falhe em sua função lubrificante. Por outro lado, temperaturas acima do HTPL fará com que a graxa seja degradada de maneira descontrolada, impossibilitando a determinação precisa de sua vida útil.

Viscosidade e adesividade – Características que determinarão a vida útil da graxa na superfície da peça ou componente. A viscosidade apropriada deve garantir uma separação adequada entre as superfícies, sem causar muito atrito.

Já a adesividade garante uma boa coesão entre a graxa e a superfície a ser aplicada e, via de regra, está diretamente ligada à sua vida útil em contato com a peça a ser protegida.

Tipos de graxa utilizadas em bicicletas

Graxas a base de sabão de lítio devem ser evitadas na manutenção de bicicletas, já que podem atacar componentes plásticos ou de fibra de carbono
Graxas a base de sabão de lítio devem ser evitadas na manutenção de bicicletas, já que podem atacar componentes plásticos ou de fibra de carbono

Lítio – A graxa mais utilizada em oficinas mecânicas é também a mais controversa, já que seu uso indiscriminado pode danificar alguns componentes da bicicleta.

De preço acessível e ótimas características de resistência à água, estabilidade térmica e de inibição de ferrugem, as graxas a base de sabão de lítio são indicadas apenas em rolamentos e caixas de direção (na espessura máxima de 2 NLGI).

No entanto, deve-se evitar a qualquer custo o uso deste tipo de graxa nos demais componentes da bicicleta, principalmente na manutenção de suspensões, onde o lítio poderá reagir não apenas com os delicados componentes plásticos (retentores e selos), como também no óleo do interior das canelas. Não bastasse isto, graxas a base de lítio são extremamente danosas à fibra de carbono.

“O lítio é extremamente nocivo para bicicletas, porque seu PH reage com os componentes da bike, acelerando o desgaste”, diz Henrique Zompero, fundador da Escola Park Tool.

A graxa de uso geral PM600 possui excelentes características de resistência à água e a altas temperaturas
A graxa de uso geral PM600 possui excelentes características de resistência à água e a altas temperaturas

Poliureia – Material desenvolvido na década de 1980, a poliureia ingressou no mercado de graxas e lubrificantes para bicicletas no fim dos anos 90 e início dos anos 2000.

Graxas que utilizam este material como espessante possuem características de resistência à água, estabilidade térmica e de inibição de ferrugem similares às que utilizam sabão de lítio. Entretanto, não atacam componentes plásticos ou fibras sintéticas como o carbono, sendo portanto ideais para o uso geral em oficinas.

Suas características de adesividade e viscosidade permitem seu uso na manutenção de amortecedores e garfos de suspensão, como é o caso da PM600, fabricada pela Balmar LCC e distribuída no Brasil pela Isapa.

“Na Escola Park Tool utilizamos a PM600, que consideramos uma das melhores do mercado, graças às suas propriedades adesivas e coesivas. Ela pode ser usada em suspensões e também outros componentes como rolamentos e até em bombas de ar”, recomenda Zompero.

Graxa Shimano SIS-SP41 para utilização em cabos e conduítes de marchs e freio (mecânico)
Graxa Shimano SIS-SP41 para utilização em cabos e conduítes de marchs e freio (mecânico)

Silicone – Pouco espessa e com alto poder de penetração, é recomendada na lubrificação de cabos e conduítes de marcha e freios mecânicos. Possui boa resistência à água e sua cor translúcida evita manchas indesejadas.

Seu baixo ponto de fusão a torna inapropriada na manutenção de rolamentos.

Graxas de Teflon como a FinishLine Teflon Grease são mais resistentes a água e duráveis que as graxas a base de sabão de lítio
Graxas de Teflon como a FinishLine Teflon Grease são mais resistentes a água e duráveis que as graxas a base de sabão de lítio

Teflon – Graxa sintética de alta qualidade, formulada com aditivos a base de Politetrafluoretileno (PTFE), patenteado pela DuPont com o nome de Teflon. Mais resistente a água e mais durável que as graxas a base de sabão de lítio, possui entretanto uma resistência a rolagem ligeiramente maior e custa entre 5 a 10 vezes mais que as graxas comuns.

Outro problema que deve ser levado em consideração durante a sua utilização é a alta toxidade do Teflon, tanto para o usuário quanto para o meio ambiente.

Graxas de cerâmica dissipam o calor de forma mais eficiente que as graxas comuns e por isto são indicadas na manutenção de rolamentos
Graxas de cerâmica dissipam o calor de forma mais eficiente que as graxas comuns e por isto são indicadas na manutenção de rolamentos

Cerâmica – Formulada a partir de micropartículas de cerâmica e fluoro-polímeros, este tipo de graxa possui a capacidade de dissipar o calor de forma mais eficiente que as graxas comuns e é por isso indicada na manutenção de rolamentos de cubos, de cerâmica ou aço.

Seu alto custo inibe sua utilização como graxa de uso geral.

Com suas características de resistência à água e baixa viscosidade, além de não atacar peças plásticas, a graxa a base de sabão de cálcio Slickoleum é ideal para ser utilizada na manutenção de amortecedores e garfos de suspensão
Com suas características de resistência à água e baixa viscosidade, além de não atacar peças plásticas, a graxa a base de sabão de cálcio Slickoleum é ideal para ser utilizada na manutenção de amortecedores e garfos de suspensão

Cálcio – Além da sua facilidade de fabricação, que reflete no baixo custo ao usuário, graxas de sabão de cálcio possuem boa resistência a água e não atacam componentes plásticos. sendo indicados lubrificação interna de componentes de amortecedores e garfos de suspensão.

Entre as graxas a base de sabão de cálcio mais utilizadas em oficinas de bicicletas destaca-se a Slickoleum, De baixa consistência (NLGI 2), possui boa taxa de adesividade, sendo perfeita para utilização no interior de amortecedores.

“Utilizamos a graxa Slickoleum na lubrificação dos retentores e componentes internos de nossas suspensões”, diz William Rodriguez, responsável técnico da Fox Racing Shox Brasil. “Outros podem danificar o funcionamento dos amortecedores da marca e sua consequente perda de garantia”, alerta.

Outro fabricante adepto desta graxa é a SRAM, que a utiliza em seus amortecedores RockShox (sob o nome fantasia SRAM Butter).

Devido ao seu baixo ponto de fusão (80°C), graxas a base de sabão de cálcio não devem ser utilizadas em rolamentos de cubos de rodas.

A graxa Anti Seize da marca norte-americana FinishLine é utilizada na montagem de componentes da bicicleta para evitar a chamada 'soldagem a frio' que pode deixar as peças emperradas
A graxa Anti Seize da marca norte-americana FinishLine é utilizada na montagem de componentes da bicicleta para evitar a chamada ‘soldagem a frio’ que pode deixar as peças emperradas

Anti-Seize – Este tipo de graxa, que utiliza como espessante metais como cobre, zinco, alumínio, níquel ou molibdênio, é utilizada para evitar que peças como alumínio, aço e titânio sobram os efeitos da chamada corrosão galvânica, processo químico onde um metal corrói a outro que esteja em contato, causando com isto uma espécie de ‘soldagem a frio’.

Pode e deve ser utilizado na montagem de parafusos da mesa, conjunto coroas/pedivela e até mesmo no canote do selim e nos parafusos de fixação dos taquinhos das sapatilhas.

São de uso obrigatório na montagem de peças de titânio, magnésio e escândio e, devido às suas características de resistência à alta temperatura, são também perfeitas para serem utilizadas nos parafuso de fixação dos rotores de freio.

Géis texturizados

Géis texturizados como o Carbon Gripper da Muc-Off e o Fiber Grip da FinishLine são utilizados na montagem de abraçadeiras, guidões, canotes e em outros componentes
Géis texturizados como o Carbon Gripper da Muc-Off e o Fiber Grip da FinishLine são utilizados na montagem de abraçadeiras, guidões, canotes e em outros componentes

Embora tecnicamente não sejam graxas, já que não utilizam a mistura óleo/espessante, géis texturizados são chamados equivocadamente por muitos de ‘graxas de carbono’.

Ao contrário das graxas entretanto, a função do produto é justamente aumentar o atrito entre superfícies, evitando o deslocamento de peças que não podem sofrer apertos excessivos, sob o risco de se quebrar, como canotes de carbono, por exemplo.

O produto usa como base um gel mineral, misturado com micropartículas de sílica – e não fibra de carbono como se poderia supor -, que resulta em uma textura arenosa que evita o deslizamento.

Ideal para aplicação em abraçadeiras, guidão, canote e em outras peças de carbono, pode também ser utilizada em canotes de alumínio em quadros de carbono e vice-versa.

Dicas

  • Evite a todo custo contaminar a graxa nova com resíduos de graxa velha. Limpe completamente a superfície das peças com álcool isopropílico ou desengraxantes industriais como o Algoo antes da aplicação;
  • Utilize sempre equipamentos de proteção como óculos e luvas;
  • Aplicadores de graxa do tipo grease gun são excelentes para a aplicação de graxa sem desperdício. Na ausência deste, utilize uma seringa grande, sem a agulha.

Fontes

Sobre o autor

André Ramos é editor do website MTB Brasília
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