13 de dezembro de 2017
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Foto: André Ramos / MTB Brasília

Como são produzidas as bicicletas na Zona Franca de Manaus

A convite da Abraciclo, MTB Brasília realizou um tour pelas unidades de produção dos fabricantes nacionais Caloi, Audax/Houston, Sense e OX/Oggi

Na semana passada, o MTB Brasília participou, juntamente com outros representantes da da mídia especializada, de uma visita a quatro fábricas de bicicletas localizadas no Polo Industrial de Manaus, a convite da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo). 

Na ocasião, tivemos a oportunidade única de conhecer detalhadamente a linha de produção da Audax, Oggi, Sense e Caloi e conferir de perto todas as etapas da fabricação de uma bicicleta. Confira!

Preparação do material – Os tubos de alumínio 6061 são originários de fábricas na China e em Taiwan e, dependendo do fornecedor, podem vir já separados por kits ou embalados por tipo (tubo superior, inferior, dropouts etc.).

Caixa com dropouts para quadros – Foto: André Ramos / MTB Brasília

O material já vem de lá hidroformado de acordo com o design da bicicleta, mas precisam ter suas extremidades aparadas de forma poderem encaixar-se com precisão.

Embora o corte do alumínio possa ser realizado através de laser, seu uso não é aconselhado na construção de quadros de bicicleta, pois como trata-se de um processo térmico, pode afetar a estrutura do material na região de corte.

Para evitar este problema, fabricantes como a Sense utilizam um maquinário especial importado da Itália que corta o alumínio com precisão através de facas hidráulicas.

Processo de acabamento das extremidades dos tubos – Foto: André Ramos / MTB Brasília

Brasagem – Logo após a etapa de corte, os tubos passam por um procedimento denominado brasagem, onde os suportes de conduítes  são colados aos tubos por meio de uma solda de baixa temperatura. Nesta etapa, são realizados também os furos para a instalação dos suportes de garrafa.

Brasagem dos suportes de conduítes – Foto: André Ramos / MTB Brasília

Ponteamento – O processo de dar forma ao quadro inicia-se com o encaixe dos diversos tubos, realizado com o auxílio de uma mesa especial, que se ajusta aos diversos tamanhos a serem produzidos. Nesta etapa é realizado um pequeno procedimento chamado ponteamento, onde um único ponto de solda mantém a tubulação na posição correta onde serão definitivamente soldados.

Processo de encaixe da tubulação para a operação de ponteamento – Foto: André Ramos / MTB Brasília

Soldagem – Uma das etapas mais críticas do processo de construção do quadro é a soldagem, que irá definir a durabilidade e a estética do conjunto. A solda em alumínio exige a expertise de trabalhadores experientes, cuja capacidade de produção pode situar-se entre 12 a 14 quadros por turno.

Soldagem TIG – Foto: André Ramos – MTB Brasília

O triângulo dianteiro é montado separadamente do traseiro e posteriormente unidos em uma segunda linha de montagem.

Soldagem do triângulo traseiro – Foto: André Ramos – MTB Brasília

Após esta etapa, os quadros são conferidos um a um por um inspetor de qualidade, sempre atento a imperfeições e respingos de solda. 

Inspeção dos quadros após o processo de soldagem – Foto: André Ramos – MTB Brasília

Alinhamento – Mesmo com toda a precisão dos tubos perfeitamente encaixados em um gabarito, pequenas distorções no quadro decorrente da temperatura da solda exigirão seu alinhamento manual.

Etapa de alinhamento do quadro – Foto: André Ramos – MTB Brasília

Os requisitos de alinhamento são muito severos e influenciam diretamente na qualidade do quadro. O alinhamento se faz logo após a soldagem e incrementa as tensões porque altera o estado “natural” da estrutura ao final da soldagem, que logicamente não é alinhado.

O quadro é fixado em uma mesa especial e analisado com gabaritos e réguas. Como nesta etapa o alumínio ainda é muito macio, eventuais correções são facilmente realizadas com pequenas pancadas realizadas com um martelo de borracha ou por uma lima.

Tratamento térmico

Maleável e leve, o alumínio é uma dos melhores materiais para se construir uma bicicleta, mas seu enfraquecimento decorrente à soldagem. Isto ocorre porque a condutividade térmica do alumínio é muito alta e a zona afetada pelo calor da soldagem, que é a que se enfraquece, se amplia.

Para aliviar tensões do material decorrentes de seu alinhamento e restaurar as propriedades da liga nas zonas afetadas pelo calor da soldagem, é necessário que o quadro da bicicleta receba um tratamento térmico em duas etapas, denominadas solubilização e envelhecimento.

Após um período dentro do forno, os quadros são rapidamente resfriados em uma solução líquida especial – Foto: André Ramos – MTB Brasília

Solubilização – Neste momento, o quadro é colocado em um forno especial que o aquece a cerca de 530 ºC por cerca de uma hora e meia, tempo suficiente que irá assegurar que a peça inteira esteja na mesma temperatura.

Em seguida, o quadro é resfriado rapidamente em um banho de água e aditivos poliméricos a temperatura ambiente. Após o processo, é necessário um novo alinhamento do quadro, já que a liga tratada oferece resistência moderada e boa ductibilidade, propriedades que facilitam esta operação.

Envelhecimento – Um segundo tratamento térmico é realizado antes da pintura do quadro. É o último passo de fabricação do quadro propriamente dito e consiste em aplicar um calor de 180 º C por cerca de 8 horas.

“Após esta segunda etapa ele [o quadro] volta a ter a propriedade mecânica de uma liga 6061 T6 por toda sua extensão por igual”, diz Átila Valadares, Diretor Industrial da Caloi em Manaus.

Usinagem – Nesta etapa, o tubo da caixa de centro recebe sua rosca para a futura montagem do movimento central. Também aqui o tubo do canote do selim tem seu interior usinado com precisão, o que elimina pontos de solda e imperfeições, permitindo assim a instalação do banco da bike.

Fresadeira especial cria a rosca da caixa de centro – Foto: André Ramos – MTB Brasília

Nesta etapa também é realizado o corte no topo do tubo do selim, que permite a instalação e funcionamento da blocagem do canote.

Pintura e adesivagem

Com o quadro finalizado, chega-se à etapa de acabamento. Para evitar defeitos na pintura, é necessário que o quadro esteja completamente livre de agentes contaminantes. Isto é evitado através de um processo minuciosos de limpeza que utiliza um ácido especial que elimina oleosidades e outras impurezas.

Processo de limpeza antes da pintura – Foto: André Ramos – MTB Brasília

O processo de pintura varia de fabricante para fabricante. Enquanto que alguns utilizam cabines individuais de pintura, outros utilizam uma área comum de acabamento. 

Pendurados em ganchos como carne no açougue, os quadros recebem várias demãos de tinta, que pode ser do tipo em pó (mais dura e resistente) ou líquida.

Processo de pintura com tinta líquida – Foto: André Ramos – MTB Brasília

Adesivagem – A indústria brasileira de bicicletas utiliza hoje basicamente três tipos de adesivagem: vinil adesivo, clear coat e a base de água. Os encarregados por sua aplicação fazem uso de gabaritos e réguas para posicionar a identidade visual da bicicleta.

Adesivagem clear coat – Foto: André Ramos – MTB Brasília

A tarefa, que exige mãos firmes e medidas precisas é realizada em uma sala climatizada e sensivelmente mais silenciosa que as demais áreas das fábricas.

Verniz – Para proteger os adesivos e a pintura, o quadro recebe acabamento final com verniz transparente.

Montagem

Nesta etapa, os quadros seguem para alinha de montagem, separados por modelos, tamanhos e cores. Uma esteira de produção movimenta-se com os quadros fixos em suportes e vão sendo montados por setores (freios, transmissão rodas etc.).

Linha de montagem – Foto: André Ramos / MTB Brasília

Para agilizar o processo de montagem, são utilizadas ferramentas pneumáticas para instalações do movimento central, da caixa de direção e de sua aranha, localizada na espiga do garfo dianteiro.  

Componentes – Produzir em território brasileiro é palavra-chave no Polo Industrial de Manaus. Assim, vários componentes como aros de rodas e guidões, são fabricados pelas próprias empresas.

Após o perfilamento e montagem do aro, uma furadeira especial realiza simultaneamente os furos que receberão os raios e a entrada da válvula de ar. O equipamento, ajustável, permite a fabricação de rodas de diversas medidas.

Uma máquina especial realiza a furação nos aros – Foto: André Ramos / MTB Brasília

Inicialmente, os raios são separados em inseridos nos cubos manualmente, antes de serem instalados no aro com o auxílio de um equipamento semi automático.

Montagem da roda – Foto: André Ramos / MTB Brasília

Em seguida a roda vai para um equipamento de ajuste, que alinha os raios distribuindo suas tensões uniformemente ao longo do aro.

A alinhadora de rodas industrial Holland Mechanics possui a capacidade de ajustar até 80 rodas por hora – Fotos: André Ramos / MTB Brasília

Embalagem – Via de regra, por questão de espaço, as bicicletas são embaladas com a roda traseira, guidão e pedais desmontados. Por questão de segurança, durante o processo de montagem estes componentes são testados em suas posições e só então retirados novamente para serem empacotados. 

Momentos antes de seu encaixotamento, as bicicletas das marcas Audax e Houston passam por um processo extra, a gravação a laser de seu número de série.

Gravação a laser do número de série das bicicletas Audax e Houston – Foto: André Ramos / MTB Brasília

Carbono – Bicicletas com quadros de carbono exigem um nível de atenção redobrada em sua montagem. Por isto, estes modelos topo de linha contam com uma linha de montagem separada.

As bicicletas de carbono possui uma linha própria de montagem – Foto: André Ramos / MTB Brasília

Aqui, não entra nenhum tipo de ferramenta pneumática, com exceção da bomba de ar: tudo é manual, ajustado pelos mecânicos mais experientes das fábricas.

Neste quesito, a Sense possui um diferencial a ser imitado: Cada bicicleta da linha de carbono recebe um certificado de conformidade assinado pelo mecânico que a montou.

Embalagem especial da linha Carbon da Sense – Foto: André Ramos / MTB Brasília

Além disso, as bicicletas são embaladas em uma caixa de papelão especial, duas vezes mais resistente que as embalagens comuns.

Importadas – Todas as demais marcas de bicicletas do grupo Dorel a qual a Caloi também faz parte, são montadas na Zona Franca, incluindo bikes Cannondale, GT e Schwinn.

Embora os quadros destas marcas sejam produzidos no exterior, a Caloi trabalha com a hipótese que este panorama possa mudar em breve. 

“Temos um plano de investimentos para os próximos 4 anos que contempla isto. Pretendemos estar prontos para soldar e pintar os quadros por aqui, dando esta possibilidade para o grupo Dorel”, disse Átila Valadares. 

Os modelos topo de linha contam com uma unidade de montagem em separado, que recebeu o nome de Célula MKD Henrique Avancini, em homenagem ao ciclista brasileiro de maior destaque no cenário do MTB nacional e atleta patrocinado pela Cannondale.

Montagem de bicicleta de estrada Cannondale na Célula MKD Henrique Avancini – Fotos: André Ramos / MTB Brasília

Nesta unidade, um modelo em particular chamou a atenção. Trata-se da nova e-bike da Caloi, a e-Vibe, equipada com motor Shimano STePS.

Nova e-bike da Caloi, a e-Vibe – Foto: André Ramos / MTB Brasília

Controle de qualidade

Para garantir a resistência e a qualidade de suas bicicletas, os fabricantes submetem seus produtos regularmente a testes de fadiga, simulando situações muito mais extremas que durante a pedalada normal, como neste teste com o guidão da Sense:

Em um teste desse tipo, os materiais são deliberadamente induzidos a encontrar seus pontos de estresse, indicando onde eles podem falhar e em qual momento isso ocorrerá.

Esta margem de segurança e qualidade possibilita aos fabricantes trabalhar com garantias mais extensas:

Marca Alumínio Carbono
Sense 5 anos 3 anos
Audax Vitalícia* 3 anos
Oggi Vitalícia* 2 anos*
Caloi 5 anos 3 anos

*Somente para o primeiro proprietário

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